O outro lado da realidade

09:00


A casa da minha tia possui uma varanda central, inúmeros quartos, quatro banheiros, e incrivelmente ainda posso dizer que existe uma torre no segundo andar da casa, a qual prefiro chamo de Masmorra, mesmo sabendo o verdadeiro significado da palavra. Como fazia em todos os sábados pela manhã, subi a Masmorra com quatro livros em mãos. Hamlet de Shakespeare, Álbum de Família de Nelson Rodrigues, O Cortiço de Aluízio e por fim Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis. Fui acostumado a salvar meus sábados de outros momentos fúteis pela leitura desde cedo, então ler ou reler quatro obras em um único dia não era um tarefa tão difícil assim. 
Devorei os atos de Shakespeare e de Nelson, além dos audaciosos cenários de Aluízio e os dramas de Brás Cubas; os devorei de tão forma que esqueci a verdadeira realidade que ainda à minha volta teimava em existi, as horas haviam passado, não era manhã tão pouco tarde, era noite! A torre da casa da minha tia possui um teto de vidro, o que a deixa ainda mais instigante, pois em noites como aquela é possível apreciar a vasta quantidade de estrelas existentes, além de imaginar as possíveis formas de vidas que ali devem existir! Do outro lado da realidade! 
Estava deitado na pilha de livros lidos que formei. Os quatro exemplares se tornaram, de fato, uma ótima almofada dura. As estrelas eram graciosas e cada qual com seu brilho e charme especial. Como era possível? Tantos outros mundos e situações além da nossa realidade. Pensei em Brás Cubas, e no autor-defunto do livro. Como ficarão nossos amigos ou parentes depois da nossa morte? Afinal de contas, assim como as estrelas nos mostram todos os dias, nós não somos o centro do universo e que facilmente podemos e iremos ser esquecidos; mas confesso que não o desejo, não quero ser esquecido. Queria poder ter a sensação de dever cumprido e de que o curto tempo que ainda tenho no mundo esteja sendo apreciado e usado da maneira correta. Talvez não tenha a sorte de Cubas em poder analisar minha vida depois que morrer. Devo fazer agora? Enquanto tenho tempo? 
Penso no porquê sou diferente das outras pessoas, no porquê não passo meus sábados indo à encontros ou procurando diversão em quaisquer lugares da cidade. Por que o prefiro passar lendo e conhecendo outros mundos enquanto formo o meu próprio? Talvez não hajam respostas para minhas perguntas e ainda ficarei sem as mesmas por toda a eternidade, mas não necessito da resposta em si e sim do sentimento de acreditar que estou fazendo o melhor; transformar seu universo e o de mais uma única pessoa no mundo é o que realmente importa! Assim serás eterno! 

Elcimar Reis.

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Comentários
2 Comentários

2 mil comentários

  1. Apenas uma palavra: Encantador.
    Um beijão,
    www.dreamsinparis.com.br

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