Olá, Sophia. III

12:27

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             Dentre os instantes que ainda me restavam, antes que o silêncio passasse ser constrangedor, refiz a pergunta dele, silenciosamente, na minha mente. "Como eu classificaria aquele encontro, em uma liberdade triste, ou uma prisão feliz!?". Não havia resposta que me mostrasse a linha de pensamento que ele estava querendo me levar. Amaldiçoei a existência dos adjetivos e disse: "Uma liberdade triste!"
            Previsivelmente, ele logo me questionou o porquê. E eu o expliquei que na realidade, me considerava livre, porque tinha autonomia no que fazia, mas não estava feliz, porque queria estar em outro lugar. Depois de quase vomitar essas palavras para fora, foi que me dei conta de que havia sido antiprofissional! Dizer ao seu entrevistado, que não queria estar ali o entrevistando, não é algo que jornalistas devam fazer com frequência, ainda mais respondendo perguntas dele, quando eu deveria estar questionando ali! Logo o pedi desculpas. 
               "Não há sobre o quê se desculpar, Sophia; apenas confesso que quando lhe vi, lá fora, através do vidro, encontrei em seus olhos, algo que conheço bem. A insatisfação. Você não quer estar aqui, mas é obrigada a estar. Logo, você não é livre para escolher onde quer estar. E não está feliz. Ou seja, você não vive nem uma liberdade triste, nem uma prisão feliz, vive uma prisão triste!" 
                 Ao fechar de sua boca, e concluir seu discurso, pude perceber que ele estava certo! Eu não estava onde queria estar, e muito menos estava feliz. Aquilo me fez ri um pouco; olhei para a janela e percebi que não haviam nuvens carregadas, e que na realidade haviam nuvens brancas que dançavam um céu claro de sol da manhã. Quão tola pude ser? 
                 Ele terminou de comer sua massa, levantou-se e disse: "Apenas seja feliz, e viva livre, ou seja, crie para você uma liberdade feliz! E é justamente este o motivo pelo qual não irei assinar o acordo com o jornal, apenas não quero, e sou livre para escolher!" 
                  Fiquei paralisada com aquilo; ele em pé, recolhendo suas coisas, a caminho de ir embora, e tudo o que pude fazer era permanecer parada, apenas o escutando e o observando. 
               "Adeus, Sophia!" - ele disse sorrindo para mim. - "Outra coisa, não usa-se crachás em entrevistas!" - e saiu rindo. 
                   Olhei para meu vestido rosa, que havia escolhido na correria em acordar, e lá estava o crachá com o nome Sophia, colossal de tão grande. Quando o procurei de volta, lá estava ele, cruzando a saída. Parada, dei-me a  observar o pontinho preto e branco, sábio, dono de uma linda voz rouca, e um português perfeito; levando consigo não só meu olhar, mas meu coração.


Elcimar Reis. 

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