O Homem Invisível.

15:19

Imagem de amsterdam, architecture, and b&w

Certo dia, enquanto caminhava por dentre as tortuosas ruas de uma "não muito" conhecida cidade, me percebi fitando um garoto que havia se sentado na calçada. Devia ter uns treze anos ou menos, algo assim. O garoto, cujo nome jamais poderia saber, olhava fixamente para o outro lado da rua, onde, de certo, haveria de existir o real motivo de tanta concentração. O outro lado da rua era composto por algumas lojas comuns de eletrodomésticos, uma ou outra lanchonete, alguns pedestres, um senhor de idade, extremamente velho que vendia picolés, algumas bicicletas trancadas num bicicletário qualquer e coisas afins. Em suma, nada demais que poderia ter despertado tanto interesse assim do garoto. Ele movimentava o pescoço tentando entender algo, olhava fixamente para todos os cantos da rua, e pelo que notei da exaltação de suas mãos e do corpo fino de adolescente que possuía, estava pensativo também. De certo, como ainda havia muito tempo sobrando até meu turno na empresa dar-se início, decidi parar e lhe questionar o motivo de tal agitação. 
- Oi garoto, tudo bem? - perguntei. 
- Sim senhor. - respondeu, quase sem verdadeiramente notar-me. 
- O que tanto tu olhas do outro lado da calçada?
- Não consegue enxergar também?
- Enxergar o que? Do outro lado só tem coisas normais que deste lado também tem. 
- Desculpe-me senhor, mas precisa olhar com mais precisão. - ele disse, indagando-me ao extremo.
Naquele momento, decidi obedecê-lo. Fitei com tanta concentração tudo o que havia do outro lado da rua, e novamente, não me dei conta de nada especial para tanta atenção. 
- Vocês adultos são todos iguais. Já não se importam nem consigo mesmos. - o garoto disse, com certa intonação de tristeza na voz. 
- Porque? - lhe questionei. 
- Desde cedo estou sentado deste lado da rua, bem vestido, porque venho de uma família de boas posses. O senhor não é o primeiro que se indaga o motivo pelo qual um garoto de pouco mais de dez anos estar sentado na calçada nem nada fazer, outros já vieram me perguntar o mesmo. Mas na verdade, nem o senhor, nem qualquer outra pessoa que por esta ou por aquela calçada passou, não reparam no velho morador de rua que está sentado do outro lado, implorando-lhes atenção e algumas moedinhas. De certo, senhor, como lhe disse, venho de uma família de posses, mas me questiono se "posse" seria algo realmente importante, uma vez, que o velho morador tem perdoado com um sorriso todos aqueles que o ignoraram. 
Depois de escutar a explicação do menino, olhei rispidamente para o outro lado da rua, e de fato, lá estava o velho morador de rua, que antes, eu não havia notado. Como? Ele realmente estava ali antes? Percebi até a singela joaninha que estava de asas abertas no muro da lanchonete, mas e ao velho morador? Cujo tamanha proporção deveria ter notado. Meus olhos, cegos, não o viram? 
O menino nada mais disse, atravessou a rua e depositou no chapéu, que o velho morador tinha a sua frente, algumas moedas, supostas por mim de sua mesada pessoal. Minha consciência, e visão do mundo nunca mais foram as mesmas. Acredito jamais ter visto aquele menino de "posses" e "olhar fixo" novamente na vida. Mas, desde então, quando passava por aquela rua para ir ao trabalho, sempre via o velho morador perdoando com sorrisos os semelhantes que não o enxergavam. 

Elcimar Reis. 

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Comentários
7 Comentários

7 mil comentários

  1. a escrita é bela, mas mais belo é o olhar para além da escrita. Sensibilidade não se ensina....Vivencia-se!
    Ver todo mundo vê! Olhar é para poucos sensíveis como você!
    Continue assim

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  2. Encontra-se homens invisíveis em todas as ruas, todas as cidades, todos os lugares. Ele não é invisível pelo fato de não enxergarem ele, mas sim, por que ninguém ajuda ele.

    www.criatividadesem.com.br

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  3. Você me esqueceu :'( ... (Risos)!
    Gostei muito do texto, mas sou um pouco chato sobre esse e outros assuntos. Já foi um tempo em que eu ficava com pena de todo mundo e tal, mas não que eu seja alguém ruim, muito longe disso, só que eu parei e comecei a pensar que algumas coisas acontecem na vida de alguém pelo que plantou no passado. Não estou julgando a nenhum momento o velho da calçada pedindo moedas, mas antes de ficar com algum sentimento eu gosto de me questionar e saber o motivo que ele parou ali.
    Viu? Sou bem chato! Entendo que em muitos casos as pessoas não merecem passar por situações assim, mas ninguém sabe do passado alheio. Enfim, você arrasou novamente nos seus textos, e por favor, não me leve à mal!!!
    Beijãoooo♥

    www.ricknegreiros.com.br

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  4. Achei o texto realmente, incrível e inspirador. Onde nos dá grandes lições. Meu nome é Sara e conheci seu blog recentemente, e não aguentava mais a pressão de comentar o que achei de todo o conteúdo que você compartilha aqui. Amei todo o blog, meus parabéns,achei tudo muito interessante!

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  6. nossa,que texto interessante... uma coisa meio "metalinguagem" não é? gostei!

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  7. Ótima cronica de cunho social,Andy. Isso mesmo estamos anestesiados. é a banalização da violência, da miséria, o torpor dos nossos sentidos. Do sem sentido. Abraços.

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