Zumbi, quando tu o amares.

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[...] eu já não era mais nada, já não servia para mais nada. Me expulsaram. E era tão assustador ouvir seus gritos, sentir teu clamor na tonalidade da tua voz. Minha pequena menina! Jamais a veria, jamais a sentiria em meus braços! Afinal, nunca lhes fui mais do que uma cuidadora, do que uma negra qualquer que trocava as fraldas da criança que um dia foi! Caminhei o resto da minha linha temporal, da vida que me restava, longe de ti. Minha menina, tu fizestes morada em meus pensamentos, nunca a esqueci, e jamais esquecerei a única pessoa que me tratou como uma pessoa. Seu sorriso leve da manhã me mostrou força! Mostrou-me que sou carne viva. Sou História, e com "H" maiúsculo! Muitos de mim morreram, sem médicos, sem cuidados... sem existir. Nunca fui uma farsa, sempre estive ali, no cantinho da parede daquele célebre jantar, apenas esperando o momento certo de servi-lhes a sobremesa. Já fui rainha, já fui guerreira, já viajei mares, já morri mil vezes, já chorei em alguns convés de navios à alto mar, já gritei, já "descarnei" no pau, me escondi em grutas, já cozinhei, limpei, passei... e hoje meu negro sangue é rei! Noto-me, orgulho-me de quem sou. Sou negra, minha menina! Jamais me calarei, pois quando digo, não digo só por mim, mas por todos aqueles irmãos do passado que foram impedidos de algo dizer. Negra, e com orgulho! Amo-te menina. Lhe visitarei em Janeiro próximo, desta vez, pelo menos em tua casa, entrarei pela porta da frente! Pela porta da frente, menina! 

Elcimar Reis. 

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Comentários
1 Comentários

1 mil comentários

  1. E ai Elcimar, beleza?
    Eu não conhecia o seu blog, e nem os seus textos, interessante ... escreve muito bem, parabéns.

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