Mais uma vez - Conto de Natal.

11:43

Imagem de christmas, winter, and snow

As clássicas músicas da coleção de vinil de Dona Margarina tocavam ao fundo meio arranhadas, quase que em boa qualidade, exibindo um som que às vezes ia e voltava e que dava uma sensação de infinitude. Graças ao baixo volume que a antiga vitrola amarela exalava na sala de estar, foi tranquilamente possível escutar a campainha que tocava à porta, anunciando a chegada de mais um parente. 

Marcelo era altivo, energético, meio gordo e destemido. Era dono de lábios carnudos, olhos de um preto escuro, cabelo meio crespo e um charme que todos chamavam de "sorriso". Sua mãe, Dona Ester, o amava por todas as qualidades e por todos os defeitos também. E Marcelo era conhecido na família como o mais "promissor" de todos os primos e netos; afinal, trabalhava na melhor construtora da cidade e possuía diversos contatos, mesmo que "presumidos".

Estava feliz, como sempre, estampando em seu rosto o "maior sorriso de todos", como bem diria Dona Ester. Adentrou o recinto cumprimentando Dona Margarina e Seu Antônio, seus avós, que o recepcionaram. A casa da família era de certa forma grande. Possuía quatro quartos, que ora já foram ocupados pelos filhos de Dona Margarina; além de uma grande copa; cozinha; sala de estar; varanda e três banheiros. A ceia de natal era sempre realizada na sala principal. E naquele ano, não fora diferente. 

Dona Margarina, tradicional senhora como era, aguardava ansiosa pela época em que poderia convocar todos os netos para ajudá-la a decorar a casa para o natal. E a decoração ficara fantástica. Havia uma grande árvore no canto esquerdo da sala de estar, repleta de bolas coloridas, laços, bonecos, piscas-piscas azuis, e uma estrela dourada no topo. As paredes foram decoradas com quadros de família, das festas dos anos anteriores, servindo como uma espécie de viagem no tempo para todos que ali estavam. Do teto, depreendiam-se cordas, formando uma espécie de varal que acomodava recortes e peças artesanais feitas por Dona Margarina especialmente para a ocasião. Marcelo entrou, acenou para os outros familiares presentes, e decidiu se sentar num banco disposto na direita da sala. 

O clima estava, sem dúvidas, agradável. Eduardo e Beatriz corriam por toda a sala, brincando de algo que Marcelo não conseguiu identificar de início. A vitrola de Dona Margarina continuava tocando as clássicas músicas natalinas, indo e voltando num som quase que falhado. Seu Antônio, mesmo com o peso de tanta idade e momentos sofridos, mantinha vivo o olhar de quem sempre foi e sempre será apaixonado. Fitava, de sua poltrona verde musgo, Dona Margarina conversar com a filha Ester um assunto que de tão bom não parecia ter fim. Olhando aquilo tudo, Marcelo não conseguiu deixar de dar um leve sorriso de satisfação. Estava feliz. Deixou seu corpo se acomodar ainda mais sob o banco, fazendo com que suas costas encontrassem as paredes logo atrás.

Eduardo tinha apenas nove anos de idade, enquanto Beatriz, a primeira neta da família, possuía onze. Aos olhos de todos, inclusive dos alienados olhos de Dona Ester, eram crianças perfeitas. Marcelo, embora muito tivesse tentado, ainda não conseguira descobrir qual era a brincadeira que tornava a noite dos meninos tão emocionante. Eduardo, com seu fino corpo de quem teria muito o que construir na puberdade, passava entre todos e corria por debaixo dos móveis dispostos na sala de estar. Beatriz gritava, e corria atrás dele. Dotada de uma sapiência que lhe era natural, Beatriz vez ou outra tentava criar atalhos para apanhar Eduardo de surpresa, passando em frente Seu Antônio e a grande árvore de natal da família. Contudo, como Marcelo bem denotara, era uma tarefa árdua, tendo em vista a criatividade e percepção do cérebro de nove anos do garoto.

Por mais que parecesse apenas um jogo de pique-pega em um local nada apropriado. Não era. Os dois apenas corriam, corriam e corriam. Sem rumo. Marcelo começou a perceber que de cinco em cinco minutos, Eduardo parecia passar por entre Dona Margarina e Dona Ester que conversavam já a um bom tempo do outro lado da sala. Sem contar, que Beatriz dava sempre o mesmo grito ansioso em capturar Eduardo quando passava em frente à árvore de natal. E aquele ciclo, de forma estranha, pareceu se repetir algumas vezes. Seu Antônio continuava fitando de longe Dona Margarina, com o olhar apaixonado de quem muito a amava. E o "maior sorriso de todos", que ocupara os lábios de Marcelo, começou a desaparecer. E em seu lugar, um aspecto de confusão e curiosidade.

A mesma música clássica exalada pela velha vitrola amarela de Dona Margarina continuava chiando o som meio enfraquecido que ia e voltava. Os meninos corriam, corriam e corriam. Eduardo, sempre passando entre Dona Margarina e Dona Ester, que conversavam. Beatriz, sempre grunhindo um som fino ao passar em frente à árvore de natal, enquanto Seu Antônio fitava Dona Margarina do outro lado da sala. A melodia da música, a esta altura, já incomodava os ouvidos de Marcelo. E a admiração pela cena de paz e prosperidade familiar que ora vislumbrara, já o estava irritando. Alguma coisa não estava certa.

Marcelo tentou dizer algo, mas nenhum som saiu. Tocou levemente sua garganta com as mãos, tentando entender o que poderia ter acontecido com sua voz. Tentou dizer algo novamente, e nada. Estava mudo. Desesperado, fez como que desse um salto do banco, mas não deu. Estava grudado. Preso ao banco, e com as costas coladas à parede que ora o confortava. Tudo o que conseguia movimentar eram seus braços. Decidiu, então, sacudi-los, na tentativa de chamar a atenção. Eduardo e Beatriz continuavam correndo, correndo e correndo ao som das clássicas músicas da velha vitrola amarela. Seu Antônio fitava Dona Margarina, apaixonado, enquanto ela conversava o assunto sem fim com sua mãe Ester. Ninguém o via. Batia e batia os braços, tentando chamar a atenção. Gritando, mas sem produzir sons. Mas ninguém o via, mesmo que Marcelo visse: a mesma cena se repetir, uma vez, outra vez, e mais uma vez, e mais uma vez, e mais uma vez.

Ano: 2058.
Condenado: Marcelo William Reis.
Crime: Homicídio qualificado consumado.
Pena: 30 anos.
Condenação: Prisão psicológica.
Cena: Natal de 2017.

Feliz Natal e Feliz Ano Novo. 
Ajude a compartilhar e divulgar o conto. ♥. Deixe seu comentário. 
Elcimar Reis.

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Comentários
18 Comentários

18 mil comentários

  1. Muito bom! Você deve ter se inspirado no episódio "White Christmas" do genial seriado "Black Mirror", certo? hehehe

    Abraços.

    http://omundoemcenas.blogspot.com.br/

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    Respostas
    1. Ssim! Black Mirror é muito bom. Já assisti esse episódio de Natal deles. Quando fui escrever, queria algo que fosse assim: surpreendente. E como faço Direito, pensei em trabalhar o sistema judiciário de condenação. Aí pensei em pegar essa coisa futurística e juntar com o que eu queria. Então, de certa forma, acabei me inspirando. UHEHEHEHE. Obrigado pelo carinhoooo! ✨💘🎄

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    2. Gente, eu quero entrar nessa conversa, haha! Também saquei a referência à "Black Mirror", que, inclusive, me foi indicada pelo Vitor e é uma das minhas séries preferidas!

      Conto maravilhoso, Elcimar! Vindo de um escritor desses, não poderia ser diferente 😍

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    3. Lariiii, claro que você pode entrar na conversa. Uahauahahhas. Sempreee. Muito obrigado pelo carinho. Black Mirror é extremamente boooom! Ansioso por essa nova temporada semana que vem! 💘🌈🌞

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    4. Eu também estou bem ansioso pela quarta temporada, tenho um carinho especial por essa série desde quando quase ninguém conhecia kkkk Nutro uma preferência forte por "White Christmas" e "Fifteen Million Merits"como os melhores episódios até agora. E quais são os de vocês?

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    5. Estou vendo a quarta temporada agora! Não consigo ter um episódio preferido, mas vou deixar "Hated in the Nation", da terceira temporada, como um bom candidato, haha!

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  2. Cara, sensacional!! O final foi surpreendente, você escreve muito bem! Achei o máximo repetir alguns pontos da cena: ao fazer isso, ao ler, foi como se eu mesma estivesse presa no loop. Do meio para o final do conto fiquei agoniada para ler logo e desvendar o mistério. Parabéns!
    Feliz natal! sz

    4mor-nuvem.blogspot.com.br

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  3. AAAAAA NANDA! Que bom que tenha gostado! Fico muito felizzzz. Obrigadoooo! 🎄💘🎄💘🎄💘

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  4. Que final surpreendente! Só não entendi muito bem (porque sou lerda mesmo). O legal foi poder colocar o Natal em outro cenário.
    Beijos!

    www.likeparadise.com.br

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  5. Cara, achei ótimo o conto! Você escreveu de uma forma tão peculiar que acabou fugindo dos clichês e me surpreendendo, de verdade! ADOREI!

    https://mmdesegundo.blogspot.com.br/ (o blog estará de volta em breve!)

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    1. AAAAAAAAAAAA Ester, fico muito feliz que tenha consigo te surpreender. Muito bom isso! ♥🎄♥🎄♥🎄. Obrigado pelo carinho e FELIZ NATAAAAL!

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  6. MEU. DEUS. Que conto sensacional! Quando cheguei na parte que o Marcelo percebeu que tinha algo de errado, não consegui mais parar de ler. Tu tem muito talento mesmo, adorei!
    Um beijão,
    Gabs | likegabs.blogspot.com ❥

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  7. Eu simplesmente AMEI esse delay que ele terá que conviver por 30 anos huahuahua primeiro pensei que as crianças acidentalmente (ou propositalmente) tinham assassinado o homem, mas depois entendi tudo no final huahuahu aaaaaaaaaaaaa

    Com amor, ♥ Bruna Morgan

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  8. Eu já amo os contos daqui imagina esse de Natal :D

    http://submersa-em-palavras.blogspot.com.br/

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  9. Que conto mais genial! Confesso que li mais de uma vez para entendê-lo por completo (desculpa minha lerdeza). Amei!

    mariasabetudo

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  10. Olá, Elcimar. Tudo bem?
    Caramba, você sabe muito bem como usar as palavras. Além, do fato de saber exercer inúmeros sentimentos no leitor. Eu adorei o conto e já te disse isso via instagram, mas precisava deixar isso registrado aqui. Por mais contos como este, por favor.

    Até mais. https://realidadecaotica.blogspot.com.br/

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  11. Fiquei tão presa querendo saber com o que as crianças brincavam, que achei que o lance estava no motivo da correria. E que susto, que desespero que me deu o fim! Adorei! Por dois motivos (não é black mirror porque não assisto a série, mas legal saber que tem episódio parecido):
    1. Estou lendo Quatro Estações do Stephen King, e o conto da primavera tem a ver com homicídio.
    2. Coisas em loop(ing?) me deixam apavorada, porque normalmente já não gosto de rotina e padrões. Então tem um filme chamado Groundhog day com o Bill Murray que você talvez vá gostar, se não viu ainda. É bem filosófico! Gosto de pensar nessas questões de como estamos vivendo.

    E sensacional saber que você mesclou isso com sua área de estudo, muito bom mesmo!

    Ótimo restante de férias para você, e um 2018 inspirador!

    Beijo

    Helen

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