O Amante.

10:23

Imagem de flowers, peach, and theme

A visão era estonteante. Tudo, de certa forma, se completava num espetáculo em cores vivas aos olhos do Amante. As árvores sorriam-lhe de volta, felizes em estarem dispostas sobre as montanhas, rodeadas pelos mais belos pássaros. Formavam-se, acima, nuvens carregadas, presságios ventosos de uma possível tempestade. Mas aos olhos do Amante, nada poderia estragar-lhe a visão. A brisa suave, fresca por gotas de chuva ainda nem derrubadas, chocavam-se contra a triste face. Fechou os olhos, e percebeu-se grato pelo momento. Gratidão. Deveria ser esta a palavra? Sentou-se abaixo de uma Mangueira, numa tentativa de melhor observar o ambiente a sua volta. Quando criança, gostava de observar a natureza. De fato, o Amante sempre fora observador. Fora ensinado que se observasse bem as pessoas, seus gestos e anseios, conseguiria descobrir os segredos de cada uma. E foi assim que passou a infância observando pessoas. Imitando seus gestos, cacoetes e modos de falar. Naquela brincadeira, com fundo de seriedade, descobriu-se ator. A arte de imitar, por meio da observação, corria em seu sangue. Contudo, nem as árvores, nem o presságio devastador de uma tempestade conseguiam lhe explicar o motivo de sua tristeza. Nem a mais pura e singela observação o levara a uma resposta. O Amante não mais era um amante. Havia sido deixado. Haviam-lhe abandonado. E agora? Qual título iria carregar? "O Imitador"? Repudiante demais, pensou. Como teria a confiança das pessoas com tal discriminação? De tanto observar, não se deu conta dos pequenos detalhes. O Amante, no final das contas, não saiu vitorioso na arte do amor. Que irônico! A beleza natural que jazia em olhos em nada o animava. Em que haveria errado? Porque permitira criar aquele abismo tão grande entre ele e sua pessoa amada? O que deixara de observar? De perceber? De tentar!? Nada via-lhe a mente como resposta. Nada poderia ligá-los de volta. Não havia pontes, possibilidades, não havia nada capaz de ceifar o abismo criado. Nem mesmo uma corda, para atirar ao outro lado, numa tentativa mortal de equilibrismo. Separados. Destino final. A tempestade, então, caiu. Molhado, começou a chorar. Fizera em si mesmo sua própria tempestade. Seu próprio presságio de uma mudança. Lavara a alma nas águas da chuva. Fitou, debaixo da Mangueira, as montanhas a sua frente. O mundo continuava ali. Tudo continuava ali. Intacto. A tempestade iria passar, a noite chegaria e amanhã... um novo dia. Um calafrio. Não deixaria-se adoecer. Não permitiria que sua alma apodrecesse com os efeitos do vazio. Um dia seria amante de novo. E poderia amar alguém com todo o ser. Assim, o Amante se levantou. Enxugou a mistura de lágrima e chuva que jazia em seu rosto, e foi pra casa, carregando consigo tal pensamento. Redento. Amava a natureza, e amava a si próprio. Não deixara de ser amante, afinal. E quando alguém lhe aparecesse, sedento por amor, ele estaria preparado. Um novo dia o aguardava. 

Inspirado no livro "O Alforje" de Bahiyyih Nakhjavani, enviado pela TAGLivros em Fevereiro/2018. 
Elcimar Reis. 

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Comentários
12 Comentários

12 mil comentários

  1. Amei sua escrita.
    Parabéns 👏👏👏

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    1. Oie Neize. Muito obrigado pelo elogio! 🌻✨💘🌻💘

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  2. Essa sensibilidade, ficou incrível, e meu queixo caiu aqui "A brisa suave, fresca por gotas de chuva ainda nem derrubadas, chocavam-se contra a triste face." d+ d+

    passa bem amg
    xoxo

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    1. AAAAAAAAAAAAAAA! Albuquerque muito obrigado pelo carinho deste comentário! ♥. Passe bem também! E volte sempre!

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  3. QUE LINDOOOOO

    https://submersa-em-palavras.blogspot.com.br/

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    1. Camila! Que saudades de te ter aqui! Obrigado pelo carinho! ♥.

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  5. "Amava a natureza, e amava a si próprio. Não deixara de ser amante, afinal."

    QUE LINDO, grifei pra vida 💗

    Identifiquei-me com o Amante em muitos aspectos. Foi bonito.

    Tenha um dia tão bonito quanto, Elcimar 😘

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    1. Oie Lari! Que coisa linda esse comentário! ♥. Vindo de uma escritora como você, fico extremamente feliz! Obrigado! ♥.

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  6. "De tanto observar, não se deu conta dos pequenos detalhes."
    Você escreve muito, meu Deus. Que texto incrível!

    Beijos,
    a-mares-ia.blogspot.com

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    1. Oie Laís! uhaushuas. Que isso! Obrigado pelo carinho! ♥.

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