O sonho americano.

10:23

Resultado de imagem para mulher trabalhando numa fábrica de costura 1900

De peça em peça, eu era obrigada a dizer a mim mesma que tudo ficaria bem no final. A loteria do visto americano, como todos conheciam, havia me proporcionado aquele emprego. E eu deveria ser grata, não? Afinal, estava no melhor e mais potente país de todos. As oportunidades bateriam a qualquer momento em minha porta e eu logo sairia dali. Mas, até que o american way of life se tornasse realidade para mim, era ali o lugar em que eu deveria estar. Agulha por agulha. Linha por linha, até que pudesse finalmente receber meus oito dólares semanais, pagar o aluguel do apartamento que divido com outras nova sortudas da loteria e mandar o saldo remanescente para Júlia. Que saudades sinto dela! Não a pude trazer do Brasil. E nem quisera! A ideia de ter minha menina, minha inocente Júlia, aprisionada naquelas horas que nunca passavam, tendo que escolher o que comer, para um dia, no futuro, não precisar escolher mais, era absurda! Ela não merecia. Estava tudo da maneira como deveria estar. Eu aqui. E ela lá, com mamãe. A cada peça que pegava para costurar, no fundo, imaginava tudo o que poderia dá-la. Todas as benesses que eu nunca pude ter. Mas que ela teria. "Você sempre fica rindo sozinha, Adriana! Como consegue?", Cristina havia me perguntado. Ela era mais uma das ganhadoras, sobreviventes, que tinham a sorte de estar ali. Viemos juntas do Brasil. Havíamos nos conhecido no caminho, entre os arames e o clima árido que permeia a Linha do Equador. "Estava pensando em Júlia", respondi. "Não poderia ser outra coisa!", respondeu furtivamente, dando uma risada, que há muito já conhecia. Foi quando aconteceu. Ouvimos um imenso barulho vindo dos andares inferiores. O edifício Asch era composto por dez andares. Nossa confecção, formada por inúmeras mulheres e poucos homens, ficava no nono. O estranho barulho parecia vir de longe. Todos na sala pararam a produção, para tentar entender o motivo do alarde. O oficial responsável pela supervisão naquele turno, oficial James O. Starling, começou a gritar algo como deveríamos voltar às confecções imediatamente. Tivemos que voltar. Cada qual com mais uma peça, mais um símbolo do aumento gradual que ocorreria na conta bancária da Triangle Company. Mas houve outro barulho, e alguns gritos. Olhei para Cristina, que já me fitava da mesa ao lado. Alguma coisa não estava certa. Uma menina, que parecia ter entre quatorze e dezesseis anos, perguntou ao oficial James o que estava acontecendo. E como praxe, recebeu uma advertência, mandando-a voltar aos trabalhos. Aos poucos, a fumaça foi tomando conta da sala. Primeiro, pensei serem os inúmeros cigarros que o oficial James costumava fumar durante o expediente. Mas não cheiravam à nicotina. E James há pouco advertira a garota sem cigarros nos dedos. Quando nos demos conta, ouvimos o anúncio. Havia um incêndio. Entramos em pânico. Todos gritavam. O nono andar do edifício Asch possuía apenas duas saídas. A sala então se dividiu. Metade das pessoas correram pra saída Leste, e a outra metade pra Oeste. O oficial James remanesceu imponente no meio de toda a confusão, gritando palavras inaudíveis. Agarrei as mãos de Cristina. "Precisamos sair daqui agora!". Cristina entrou em pânico. Em seu rosto, desespero e lágrimas. "Calma! Vamos conseguir!". A puxei para saída Oeste. Estava travada. Mulheres estavam sendo pisoteadas com a tentativa frustada de mais de trinta pessoas passarem por uma mesma porta ao mesmo tempo. Corri então para saída Leste, puxando Cristina pelos braços. Não havia saída. O fogo já se encontrava nas escadas. O elevador havia parado. Olhei-a rapidamente. "Não vamos conseguir!", ela disse. Agachei ao chão para evitar pancadas dos transeuntes desesperados. Puxei Cristina para debaixo de uma das mesas de costura. "Vamos sim! Dá para usar a saída incêndio, pelo lado de fora!". O teto desabou

Dia Internacional da Mulher. 
8 de Março de 2018. 
Governador Valadares - MG. 
Elcimar Reis. 

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Comentários
12 Comentários

12 mil comentários

  1. Meu deus, que pesado. Eu só consegui pensar nas fábricas da China ou algo do tipo. O pessoal podendo morrer a qualquer instante por instalações horríveis e precárias. :( Esse conto é bem bonito, apesar de ser tão triste, e real. Eu amei.

    www.paleseptember.com

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    1. Oie Tany! ♥. Muito obrigado pelas palavras! uahushaus. Essa reflexão foi justamente o que eu queria ensejar! ♥.

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  2. Conto incrível, me fez sentir o pouco que aquelas mulheres sentiram. Parecem cenas tristes de um filme.

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    1. Oie Jean! Muito obrigado pelo carinho. Esse foi um dos meus objetivos. Se todos se colocassem uns nos lugares do outros séculos atrás, teriamos menos tragédias como está! Mas nem na atualidades conseguimos. Uma pena! 💘

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  3. Elci, me emocionei com o seu conto, cheguei a me arrepiar. Infelizmente seu conto um dia fora verdade, né?!

    mariasabetudo

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    1. Infelizmente foi sim Ste! Obrigado pelo carinho. Que bom que fui capaz de te proporcionar tal sentimento. 💘💘💘💘

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  4. O coração até chora... Poxa cara.

    Mas ficou bonito, apesar de trágico.

    Bom Dia. Beijos.

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    1. Hahahaha! Sim!
      Obrigado pelo carinho Ricardo! 💘✨

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  5. É de dar aperto no doração lendo e sabendo que isso aconteceu.
    Eu fiquei lendo e imaginando o desepero das mulheres. Que triste, extremante triste.
    Essa á uma data para refletir.

    https://heyimwiththeband.blogspot.com.br/

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    1. E não tão somente esta data. Mas todas as datas e todos os dias. Refletir sempre! Obrigado pelo carinho! 🌻✨💘🌻✨💘

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  6. Meu Deus, esse foi pesadíssimo. Chega a dar uma dor no coração só de ler as palavras, sabe? É tão triste que nem parece real e, principalmente, algo que ainda pode acontecer nos dias de hoje </3
    Um beijão,
    Gabs | likegabs.blogspot.com ❥

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    1. Muito obrigado pelo carinho Gabriela! Sim sim. Tudo ainda pode acontecer. Que evitemos situações assim sempre! 🌻✨💘

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