Um retrato da (des)valoração amorosa.

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Imagem de girl, camera, and vintage

Ela se enroscou em meus braços, como uma espécie de animal, clamando por carinho. Eu a agarrei com mais força. A afastei e a fitei aos olhos. "Pare Ana, não me importam o que vão dizer". Ela engoliu minhas palavras, já não me acariciava mais. Uma lágrima caiu. "Mas eu me importo, Thiago. Amanhã todos estarão comentando. Mamãe me olhará como uma promiscua, me deserdará, me dirá para ir embora. E eu terei que ir. Eu vou ir. Nunca mais verei minha irmã, e terei que sair do país, se for o caso. Nunca mais lhe verei. A não ser que viesse comigo, mas não sei se deveria. Só seria motivo pra falarem ainda mais". Não havia como não concordar. Nunca a havia visto daquela forma. Tão imponente, tão magoada, tão frágil. Não sabia o que fazer. Eu a olhava de volta, sem palavras. Mais lágrimas percorriam sua pele macia, e sua expressão me dizia algo como "Eu não sei o que fazer Thiago". "Quero me casar com você!", eu disse. "Mas como?", respondeu numa voz fina de quem não sabia se soluçava, falava ou chorava. O fato era que haviam nos flagrado. Senhor Tobias Armando, o mais importante jornalista do Rio de Janeiro, havia nos capturado com sua máquina de fotografia aos beijos numa rua escura de Botafogo. "Filha de Magnata trai marido com cunhado!", "O fim de uma importante aliança entre as duas Companhias mais bem sucedidas do país?". Seriam estas, provavelmente, as manchetes dos jornais. Pior que, sendo verdadeiras, eram perguntas que também nós nos fazíamos. "Vamos nos divorciar! E se for o caso, eu saio do país com você! Tenho um dinheiro guardado e podemos ir ao Chile!". Suas lágrimas se cessaram. "Você teria mesmo coragem? Minha irmã nunca mais falaria comigo, e eu nunca mais poderia voltar!". O amor havia nos pegado. Havia nos desclassificado do status social de pessoas livres à meros fugitivos Correndo contra o tempo. Contra as seis horas da manhã, quando sairiam os jornais, e estaria tudo acabado. Respondi que sim. Estava tudo acertado. Iríamos partir agora mesmo! Pegar nossas malas, coisas importantes e ir em direção à uma nova vida no Chile! A tomei pelos braços, seus cabelos escuros bateram-se contra meu corpo, e a beijei. Num desejo ora reprimido. Com o gosto ao fundo de perigo. A porta, então, se abriu. Joana entrou. Paralisada, ainda com a mão sob a maçaneta. "O que é isso?", gritou. Era o fim. 

Elcimar Reis. 

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Comentários
6 Comentários

6 mil comentários

  1. Chocada com essa traição descrita :o Seus contos sempre surpreendendo.
    Beijos!

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    1. Uahauahuauss. Fico feliz que tenha gostado Thami. 💘.
      Muito obrigado pelo carinho.

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  2. Como sempre escrevendo muito bem! Que enredo!
    Abraço!

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    1. Oie Fernanda! Que saudades tê-la aqui no blog. Que bom que gostou! Obrigado pelo carinho! 💘

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    1. Muito obrigado pelo carinho Ricardo! 💘🌷

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